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segunda-feira, 21 de março de 2016

Postar para protestar

Com o crescimento da internet e a rapidez de expor uma opinião, todos se acham, além de donos do mundo, especialistas em política. “Sou contra a corrupção”: uma das frases que mais aparecem na minha linha do tempo do Facebook. Foi então que me surgiu a dúvida: se você é contra a corrupção, é porque existe alguém abertamente a favor, não é? Eu confesso, nunca vi alguém que fosse abertamente favorável à corrupção.
Depois das manifestações de junho em 2013, contra o aumento dos vinte centavos na tarifa de ônibus, parece ter aumentado a militância na internet: o gigante acordou, hashtag #ForaDilma, governo corrupto etc. Mas parece que o gigante acordou, fez um protesto, tirou selfie, dormiu durante as eleições e agora bate panelas e luta contra a corrupção nas redes sociais. Quando não protestam virtualmente colocam a culpa no sistema. Disse Clóvis de Barros Filho, filósofo e professor especialista em ética que “o problema do sistema é um argumento que serve hoje como desculpa para tudo”. Colocar a culpa no sistema, então, é afirmar que o sistema político leva a práticas corruptas, sendo que há direito de escolha entre se corromper ou não.
Segundo o historiador brasileiro Leandro Karnal, a corrupção é histórica, estrutural e não é do governo. “A corrupção pertence a uma interpretação ética bastante difundida na sociedade, que envolve até andar no acostamento”. Portanto, é fácil ser ético e atacar algo que não me favorece. Se queremos realmente uma mudança vamos fazer como aconselha Gandhi, começando por nós mesmos. Furar fila, andar no acostamento, subornar um guarda de trânsito, colar na prova, comprar carteira de motorista, não me parecem ser comportamentos honestos.
O fato é que fazer manifestações contra generalidades não vai levar a lugar algum, postar uma publicação no Facebook ofendendo o governo atual e sonegar impostos não faz sentido, bater panelas ao invés de discutir a situação atual não causará melhoria, expor discurso de ódio não mudará a situação do país, ir a uma manifestação só para publicar uma foto no Instagram com uma hashtag ofensiva não te fará mais cidadão e muito menos um especialista em política.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Qual o seu lide?

O nome dele é João. Ainda está na metade do curso de jornalismo. É esforçado e escreve muito bem. Já está cansado de ouvir falar de um tal de lide. É, aquelas perguntas básicas que a matéria deve responder ao leitor. Andava pela rua tentando entender o porquê. Por que as coisas tem que ser assim? Por que não podem ser de outro jeito? Pobre João...

Tem a Thainá. Uma maluquinha que também faz jornalismo, tem a poesia na ponta da caneta, mas também enjoou desse lide aí. Vivia no bar, tentando entender o quando. Quando eu vou arranjar um emprego legal? Quando eu vou ganhar dinheiro? Mas ela sabe, tudo tem seu tempo...

A Thaís então, já pensou muito em desistir desse tal jornalismo. Ô menina que tem boas ideias. Às vezes é duro, parece que tudo vai dar errado, mas como dizem por aí, a parte mais escura da noite é quando já está quase amanhecendo. Vivia na dela, pensando no o que. O que eu quero para minha vida? O que me faz bem? Calma, vai ficar tudo bem...

O menino Lucas. Quantas vezes pensou em jogar tudo para o alto, fazer um curso de inglês e viajar pelo mundo. Lia suas histórias em quadrinhos pensando no como. Mas como vou viver se não for de jornalismo? Como vou chegar lá? Se você quiser, você vai chegar...

A Juliana vive pensando se jornalismo é mesmo pra ela. Estuda, estuda, estuda e não vai tão bem nas provas. Pensou bastante em desistir, agora tenta compreender quem. Quem é o jornalismo? Quem é um bom jornalista? Pode ser você, Juliana...

E a Mari. Bem, gosta tanto desse tal de jornalismo que passa mais tempo na faculdade do que em casa. Cansada de se perder, passava horas tentando entender o onde. Onde é o meu lugar? Onde eu vou me encontrar?

Acho que o jornalismo deixa as pessoas meio doidas. Elas acham que podem mudar o mundo. Talvez elas possam, quando conseguirem encontrar o lide delas. A mudança do mundo começa na gente. Mas às vezes você tem que parar de se preocupar com o por que, quando, onde... E assim, dar sentido à sua história.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Para você, que se prepara para ser jornalista

São duas horas da madrugada de uma fria quinta-feira de maio. Na cama, Thiago não consegue pegar no sono. Na mente, todos os textos para revisar, a matéria especial sobre a Legalização da Maconha que ficou pela metade, o medo de enfrentar a marcha que acontece no dia seguinte, as contas acumuladas ao lado do telefone e o sono perdido.

Aos 29 anos, em plena construção de sua carreira, ele recorda o momento em que escolheu o Jornalismo como profissão. Na época já conhecia as dificuldades que enfrentaria. Foram tantas as vezes que ouviu os professores mais próximos, no ensino médio, pedindo (alguns implorando) para que ele mudasse de ideia e optasse por Letras ou História, suas outras grandes paixões, e se tornasse professor.
Mas Thiago nunca pretendeu lecionar. Sonhava mesmo é com uma vida sem rotina, cheia de aventuras – embora hoje, ele pense duas vezes antes de se aventurar.

De lá para cá, foram muitas noites sem dormir, horas extras (nunca pagas) na redação , fontes implicantes, matérias cortadas por editores e férias perdidas. “Será que tudo isso valeu a pena?”, se indaga enquanto revira na cama. A foto da namorada sorrindo na mesa de cabeceira chamou a atenção. Ela, também jornalista, segura nas mãos o prêmio que conquistou em um concurso de fotografia.

Trabalhar numa grande redação nunca foi problema para Thiago, na verdade, sempre foi seu sonho. E se era aventura que ele desejava, não tinha por que reclamar agora. O Jornalismo lhe proporcionou viagens, grandes coberturas, amizades verdadeiras e o amor à profissão. Tudo isso em meio a muitos erros gramaticais no início da carreira, vários pisões no pé durante coletivas de imprensa, empurra-empurra em busca da fonte ideal e uma cansaço sem igual.

Sempre existirão obstáculos e desafios no caminho de quem almeja algo na vida. “Rotina? Ela não existe para você, jornalista”, ironiza Thiago. “Existe uma hora para chegar na redação, mas o trabalho nunca termina. Não pense que isso é falta de organização ou responsabilidade, você pode ter o seu dia planejado, mas isso não quer dizer que ele será como o imaginado“, conversa consigo mesmo como se aconselhasse um jovem universitário.

O dia a dia do jornalista é cheio de surpresas, nem sempre boas. É preciso amor, paixão e comprometimento. Ah, um pouco de cara de pau também ajuda. Portanto, deixe de lado a vergonha e a timidez. E tenha muita, muita paciência. Thiago sabia de tudo isso e tentou se preparar ao máximo, mas ninguém está realmente pronto. Aos poucos, com a experiência e o tempo é que se aprende.


Enfim, ele consegue cair no sono, sabendo que o dia seguinte será longo e com a certeza de que tudo o que viveu, as histórias que ouviu e que contou, as vezes que seu nome saiu estampado nos jornais e, principalmente, o reconhecimento das pessoas, tudo isso valeu a pena. A vida lhe fez jornalista – e para ele não havia nada melhor, apesar dos sacrifícios.