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terça-feira, 9 de maio de 2017

Um livro para a vida



Uma viagem inesquecível com Eliane Brum 


Eliane Brum, autora de O Olho da Rua, publicado em 2008.
Foto: Divulgação

Como alguém submerso pela maré. Foi assim que fiquei ao ler o livro O Olho da Rua, de Eliane Brum. Só que ao invés de água, me afundei no choro. Não consegui conter a emoção com tamanha delicadeza e compaixão no retrato das histórias.  

Publicado em 2008 pela Editora Globo, a obra é uma coletânea de 10 reportagens da autora para Revista Época. 

Ao ler os capítulos, comecei a viver as narrativas contadas pela jornalista:

Conheci as parteiras da Amazônia e suas experiências em "pegar meninos". Acompanhei a complexidade dos conflitos por terras em Roraima e a vida de idosos numa casa de repouso do Rio de Janeiro. Fiquei triste ao saber que o desempregado Hustene não conseguia mais comprar Danoninho para os filhos e senti a preocupação dos moradores da Terra do Meio por conta da grilagem.

Respirei fundo diante os relatos de mães que tiveram seus filhos mortos pelo tráfico de drogas e vi o quanto um pedaço de metal dourado representa na vida das pessoas. Admirei a cumplicidade dos habitantes de um país chamado Brasilândia e torci para Eliane Brum completar o curso de meditação intensa, que lhe proporcionou uma baita dor nas costas. No último capítulo, dei adeus a uma guerreira que alimentava crianças famintas, mas, que no fim da vida, não tinha mais prazer em cozinhar e comer.

Mas o que mais me chamou a atenção é o lado humano dessa repórter, que ao final de cada reportagem do livro, abre o coração ao contar os erros da profissão, até com pedidos de perdão aos seus personagens. 


Isto é jornalismo literário. Descobrir grandezas nos pequenos detalhes da vida, olhar a realidade de maneira profunda, saber escutar as fontes e se esvaziar de preconceitos, tudo com a intenção de construir histórias reais, mas com um toque de arte. É como uma melodia, tem ritmo e sentimento. 

"Neste livro, como na vida, tudo o que tenho a oferecer sou eu mesma. Espero que seja suficiente". Eliane Brum - O Olho da Rua (página 15)




Confira o comentário da jornalista Eliane Brum sobre a obra aqui

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Quanto valem 20 centavos?

"Vinte centavos talvez sejam o tanto de morte que uma vida humana já não pode suportar."
Foto: Divulgação

Eliane Brum escreve às segundas-feiras na Revista Época, e como não poderia ser diferente, esse texto fala sobre as manifestações que ocorreram na semana passada em protesto ao aumento das tarifas dos ônibus. Manifestações que aliás continuarão...

Leia:

Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos.

A multidão que tomou as ruas de São Paulo, ecoando o que já vinha acontecendo em outras cidades do Brasil, está longe de ser homogênea. Há grupos organizados – e alguns deles acreditam que a depredação é um ato legítimo de defesa, diante da violência sistemática praticada pelo Estado e pelo capital –, há partidos políticos de esquerda e há uma massa de pessoas, a maioria jovens, que aderiram movidas por suas próprias aspirações. O que une “os vários movimentos dentro de um” são os 20 centavos. Mas os 20 centavos deixaram de ser 20 centavos para se tornar expressão de um descontentamento difuso, mas nem por isso menos profundo. Uma decepção com a vida que se vive e um anseio por sentido.

As manifestações de rua são talvez a melhor notícia da democracia, a prova maior de sua vitalidade, mas elas expressam o sentimento de que os políticos que aí estão, os partidos que aí estão, a concepção de mundo, de país e de política que eles representam, já não representam um número crescente de pessoas. Especialmente os jovens pós-internet, mas não só. Contra aquilo que não se entende, mas que ameaça o poder estabelecido, joga-se a polícia. O que se viu na quinta-feira (13/6) foram cenas que lembravam a ditadura militar. Mas as semelhanças acabam aí. A demonstração de força era a expressão de uma fragilidade com a marca deste tempo histórico, do hoje.

(...)

É possível que seja de qualificação do desejo que esse movimento fale. Talvez seja esta a única coesão entre tantos anseios diferentes, organizados ou não. O sentimento de que essa vida é pouca, de que essa política pautada mais pela reprodução das relações de poder do que por ideias de um Brasil melhor já não motiva ninguém. Em São Paulo, mais do qualquer uma das outras capitais que também se levantaram e se levantam, a questão do transporte explicita todo esse desencanto. É muito simbólico que Alckmin e sua polícia tenham frisado tanto que defendiam “o direito de ir e vir” dos cidadãos, como se cidadãos também não fossem aqueles que se manifestavam. Mas o mais irônico dessa justificativa para a repressão é que “ir e vir” é o que não se consegue fazer em São Paulo, imobilizados em ônibus e carros no trânsito parado, uma oposição já cristalizada na linguagem. Talvez o que una os manifestantes tão diferentes de São Paulo seja o movimento – o ato mesmo de literalmente romper o imobilismo e se mover. A maior transgressão é andar – e por isso era também crucial andar na imensamente simbólica Avenida Paulista. Pessoas, não carros, não ônibus 20 centavos mais caros. Não mais como zumbis sustentando uma vida insustentável em passos claudicantes e limitados, mas como pessoas no movimento desejante em busca de uma vida que faça mais sentido.

Vinte centavos talvez sejam o tanto de morte que uma vida humana já não pode suportar. Em São Paulo, mas também em Porto Alegre, no Rio, em Brasília, em várias cidades e capitais. Assim como em outras partes do mundo – antes, agora, possivelmente depois –, em cada uma delas com contextos, peculiaridades e rostos próprios, mas com algo em comum que é possível reconhecer. Algo que revela de um mundo que apodrece, de um modo de vida que já não dá conta da vida.

Talvez quem melhor tenha sintetizado os protestos que hoje tomam conta do Brasil tenha sido um velho, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em outro canto do mundo, quase dois anos atrás. Ao falar aos jovens que tomaram as ruas de cidades da Espanha como Barcelona e Madri, ele disse uma frase que se disseminou pela internet, traduzida para várias línguas: “Este mundo de merda está grávido de outro”.

Tomara que esteja. E que tenhamos a grandeza de sonhar com um mundo em que exista espaço para a vida.


Confira o texto na íntegra.