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terça-feira, 14 de março de 2017

Os bastidores da sétima arte nas lentes da Agência Magnum

Exposição em São Paulo mostra fotojornalismo a partir de Robert Capa


Foto: Eve Arnold – Marilyn Monroe no filme Os Desajustados (1961)
Crédito: Divulgação Magnum Photos

O que o amor faz? Ele nos incentiva a saltar obstáculos e aventurar-se em mares desconhecidos. Robert Capa, um dos principais fotojornalistas do século 20, sem dúvidas, estava apaixonado quando decidiu ir para Hollywood ao encontro da premiada atriz Ingrid Bergman. Esse romance fez com que o mestre das fotografias de guerra imergisse no mundo do cinema para registrar, junto com companheiros de profissão, os bastidores da produção e gravação de grandes filmes. 

Da realidade sangrenta das guerras para os cenários encantadores do cinema. Em 1947, Capa, com os fotógrafos George Rodger, Henri Cartier-Bresson e David Seymour, criaram a Agência Magnum, uma cooperativa de fotógrafos francesa.

Quem gosta de fotojornalismo e quer conhecer os bastidores da época de ouro da cinematografia mundial, não pode perder a exposição “Magnum no Cinema”, 80 imagens históricas de 11 filmes cobertos pela Agência Magnum, como “Luzes da Ribalta” (1952), “O Pecado Mora ao Lado” (1955) e “O Planeta dos Macacos” (1968). 

Dentre as estrelas do cinema captadas pelas lentes de Elliott Erwitt, Henri Cartier-Bresson, Burt Glinn, Eugene Smith, Nicolas Tikhomiroff, Eve Arnold e outros grandes nomes do fotojornalismo, estão Charles Chaplin, Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe e John Wayne. 

Foto: Burt Glinn – Elizabeth Taylor no filme De repente, no último verão (1959)
Crédito: Divulgação Magnum Photos

A exposição “Magnum no Cinema” vai até 2 de abril na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp, na Av. Paulista, 1.313 – em frente ao Metrô Trianon – Masp. A entrada é gratuita e o horário de funcionamento é das 10h às 20h, diariamente.

Para mais informações, acesse Magnum Photos e Sesi.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Fotógrafo brasileiro ganha prêmio internacional de fotografia


(Imagem: Ricardo Stuckert)
O fotógrafo do ex presidente Lula e também do Instituto Lula, Ricardo Stuckert, foi um dos premiados no Oman 1st Internacional Protography Circuit. O concurso reuniu fotógrafos de 45 países com 1.885 imagens.

Ricardo concorreu com a foto de um índio no Rio Xingu e recebeu a medalha de ouro na categoria "Muscat - Pessoas". A foto foi tirada durante a viagem do fotógrafo à aldeia Kaiapó, no Parque Nacional do Xingu, no Estado do Mato Grosso. E o profissional teve outra foto selecionada, uma indi Ashaninka em um barco no Rio Juruá, no Estado do Acre.

As fotos ficarão expostas na Sociedade Fotográfica de Omã, na península arábica.

(Mais informações no portal comunique-se)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Fotógrafo brasileiro ganha prêmio Pulitzer por imagens de refugiados

Imagem premiada
Na última segunda-feira (18), o fotógrafo brasileiro Mauricio Lima foi um dos ganhadores do prêmio Pulitzer pelas fotografias feitas para o jornal "The New York Times", que mostram o drama dos refugiados.

A imagem premiada mostra pilha de coletes salva-vidas usados na travessia da Turquia para Grécia. 


O trabalho foi premiado pela categoria "fotografia noticiosa". O prêmio Pulitzer foi estabelecido em 1917, e este ano vivencia a 100º edição. 

Premiados em jornalismo

Serviço Público - Associated Press(por matérias sobre trabalho escravo de frutos do mar para os EUA).


Notícias de última hora - Equipe do "Los Angeles Times" (pela cobertura do ataque em San Bernardino).


Reportagem nacional- Equipe do jornal "The Washington Post" (por criar e utilizar um banco de dados nacional por policiais).


Reportagem internacional - Alissa J. Rubin, do jornal "The New York Times" (que escreveu sobre crueldades vividas por mulheres afegãs).


quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Eu sou uma repórter de desacontecimentos", diz Eliane Brum


"Eu sou uma repórter de desacontecimentos. É um envolvimento pelas margens, pelo que fica nos cantos dos acontecimentos."



Como surgiu a ideia de transformar em livro o material já publicado na internet?

Eliane Brum – É uma ideia que eu tinha, da qual depois havia até esquecido um pouco, e o Tito Montenegro (que é o editor da Arquipélago) fez essa proposta de transformar as colunas em livro. Para mim, livro é um percurso, ele conta uma história. Não importa se em papel ou digital, tanto que A menina quebrada foi lançado quase que simultaneamente em papel e em e-book (diferença de uma semana). Acredito que mesmo as pessoas que me leem quase toda 2ª.feira vão se surpreender ao ler as colunas como um livro, como um percurso. Eu mesma, ao longo da edição, percebi que havia um diálogo que estava sendo construído ali. Algumas dúvidas formuladas em algumas colunas iniciais eram respondidas em outras, lá na frente. Algumas inquietações tomavam outro rumo depois. É toda uma conversa que se estabelece, que foi surpreendente mesmo para mim, que escrevi. A lógica da edição foi manter o ritmo original das colunas para contar essa história mais ampla, manter a mistura que caracteriza minha coluna de 2a.feira, da qual o leitor nunca sabe o que esperar – mistura que se dá tanto pela variedade dos temas como pela diferença de estilos, já que cada uma pede estilo e palavras próprias. E assim construir um pequeno retrato dessa nossa época, mas um retrato em movimento.

 E como foi feita a seleção desse material?

Eliane Brum – Bem complicada... Para mim é sempre muito difícil fazer essas escolhas. Tanto que a ideia inicial era fazer 40 colunas. Aí eu falei pro Tito que 50 era um número muito mais bacana, muito mais redondo [risos]! E no fim viraram 64. Chegou no limite, porque o livro tem mais de 400 páginas. Nós tiramos as entrevistas – eu tenho essa ideia de fazer essas entrevistas mais longas, de resgatar um pouco o que já não tem mais espaço no impresso, onde o entrevistado tem tempo de expor sua ideia, o contexto, a complexidade... e venho fazendo isso na coluna – porque só uma delas tem 50 páginas. Aí não daria. Então, cortamos as entrevistas, o que foi triste. Fui escolhendo o que eu achava que contava mais do momento e respeitando o jeito da minha coluna. Chegamos a pensar em temática, em dividir em alguns grandes temas de que trato com mais frequência, mas mudamos de ideia porque achamos que precisávamos respeitar essa característica da coluna, da qual as pessoas sempre me falam, que é “ah, eu nunca sei o que vou encontrar na 2a.feira, sobre o que tu vais escrever, porque é tão variado!“. E eu gosto disso, gosto dessa ideia. De repente, falar sobre parte de um filme pra pensar em alguma coisa, falar de Belo Monte, falar de política... Minha coluna é misturada, acho que a vida é mistura.

 Como recebeu o convite para trabalhar na internet?

Eliane Brum – Nós que trabalhávamos na Época fomos estimulados a produzir alguma coisa pra internet. Todo mundo devia fazer algo pro site. Eu, a princípio, tive resistência a isso, achava que já estava de bom tamanho fazer as reportagens na revista imprensa. Mas comecei a pensar que, se era importante fazer alguma coisa na internet, fosse alguma coisa nova pra mim, um desafio. Acho que é importante isso. Porque escrevo para desacomodar o leitor, não escrevo para apaziguar. Escrevo para que se sinta incomodado e instigado a ver o mundo por outros ângulos. Mas para fazer isso preciso primeiro desacomodar, me perturbar, sair do meu lugar. E achei que uma coluna de opinião representaria isso, apresentar uma outra narrativa. Então propus uma coluna de opinião e fui descobrindo como era uma repórter fazer uma coluna de opinião.

 E isso dentro desse meio novo, em que há mais interatividade com o leitor. Como funcionou essa questão pra você?

Eliane Brum – O leitor ganhou uma importância muito grande na internet, ele também passa a ser um escritor. Cada texto que eu faço, o leitor continua escrevendo esse texto, na medida de seus comentários, contribuições e discordâncias. É um diálogo que se faz como se fosse um debate mesmo. O texto é muito mais vivo na internet, porque é um debate permanente. Tenho coluna de dois anos atrás que de repente aparece de novo como mais lida do site porque alguém começou um debate na rede e esse debate acrescenta coisas. Isso eu acho fascinante! Eu encontrei na internet uma possibilidade com a qual não sonhava... Foi maravilhoso, porque a internet realizou grandes sonhos que eu nem sabia que podia sonhar! O primeiro foi de escrever no tamanho que os textos têm, descobrir o tamanho que o texto tem, que é uma das nossas tarefas. Eu sofri, como quase todo mundo, o limite do papel, a briga por páginas... Porque eu achava, como quase todo mundo, que havia sempre menos páginas do que as minhas reportagens precisavam. Eu sonhava que inventassem uma revista em que as páginas se desdobrassem e cada uma virasse dez. Mas a internet é muito melhor que isso. Ela nos dá a possibilidade de escrever em tamanho ilimitado. Claro que tu não vais fazer isso, precisa descobrir qual é o tamanho que as coisas têm. Mesmo as colunas sendo longas – e elas são –, eu corto sempre. E as manhãs das 2as.feiras servem pra isso, eu corto as sobras. Discordo de quem diz que a internet é só para textos instantâneos, rápidos e curtos. Também é pra isso, mas serve igualmente para resgatar os textos em profundidade. Podemos trabalhar a complexidade, o contraditório, as grandes reportagens e entrevistas, os ensaios. Sempre ouvi que o leitor não gostava de texto longo. Passei a vida ouvindo isso. E sempre perguntava se havia pesquisa pra isso. A internet mostra que não. Para o leitor, não interessa se o texto é grande ou pequeno, ele lê se o texto ecoa nele, se diz algo importante, dialoga e respeita sua inteligência. Vemos pela audiência, pelo tempo de permanência nosite, que ele lê textos longos.

Ao escrever sua coluna de opinião, você acaba expondo também um pouco da sua intimidade. Você lida bem com isso?

Eliane Brum – Às vezes é difícil, porque eu sou muito na minha, sou reservada. Hoje, quando tenho alguma exposição pública, faço uma palestra, participo de um debate, depois preciso ficar em casa. Preciso ficar meio que escondida dentro de casa para me recompor, porque não é fácil. Há um movimento interno de me expor, de ir para fora. E falar de mim é um pouco isso também. Mas é um exercício interessante, porque como repórter eu passei a vida inteira pedindo isso para as pessoas. Como posso pedir aos outros aquilo que não posso dar? Estabeleci para mim nas reportagens, ao longo dos anos, quais são os meus limites éticos. E antes de bater na porta de alguém, faço um questionamento interno: “Se alguém batesse na minha porta, se alguém me fizesse essa pergunta, eu poderia abrir essa porta? Eu poderia responder essa pergunta?”. Se a resposta é “não”, eu não saio de casa. O meu limite é esse: não peço ao outro aquilo que não posso dar. Então, minha exposição também é parte desse princípio. Eu me exponho quando acho que essa exposição é importante para contar algo. Quando acho que não é, não precisa.

 De volta ao início de sua carreira: como e quando se descobriu repórter?

Eliane Brum – Eu me descobri repórter fazendo reportagem. Até o final da faculdade de Jornalismo, minha convicção era a de que eu não servia pra ser jornalista, eu não servia pra ser repórter, porque era muito tímida, não conseguia me imaginar falando com as pessoas, as procurando. E também não conseguia enxergar as pessoas nos jornais daquela época, não conseguia me encontrar nas matérias, não conseguia me ver naquelas matérias.

Por quê?

Eliane Brum – Achava que era muito árido e que eu não ia servir para fazer aquele tipo de texto. Havia espaços, mas, em geral, os textos dos jornais eram mais duros. E achava que não servia pra isso. Mas como eu já havia cursado boa parte da faculdade, meu plano era terminar, concluir também o curso de História e me direcionar para esta. No final da faculdade, conheci o professor Marques Leonan, que mudou a minha vida, porque era apaixonado por reportagens. Ele falava com uma paixão tão grande! Me apresentou às grandes reportagens e aquele jornalismo me fascinou. E foi para ele que fiz minhas primeiras matérias. Houve dois episódios marcantes: um, que foi minha primeira matéria, quando fazíamos a disciplina de estágio (naquela época era obrigatório o estágio dentro da faculdade, não podia fazer fora), eu escrevi sobre todas as filas pelas quais passamos desde que nascemos até morrer. Hoje não acho o tema inusitado, mas naquela época era. E para minha surpresa ele adorou, falou que aquilo era bom. Essa declaração foi muito importante. Depois houve um concurso de jornalismo das universidades do Sul do País, o SET Universitário, e uma amiga minha inscreveu essa reportagem. Lembro que a comissão julgadora era formada por jornalistas e publicitários, que nos chamavam para discutir o trabalho. Quando entrei, os jurados jornalistas disseram “o que tu fazes não é jornalismo“, e os publicitários: “É sim!”. Não sei se porque havia mais publicitários do que jornalistas (e eles eram mais convincentes), eu ganhei. O prêmio era um estágio no Zero Hora, onde fiquei por 11 anos. Foi lá que descobri que a reportagem não é o que eu faço, é o que eu sou. É assim que vivo. Antes disso, houve outra matéria que fiz pro Leonan também, com a qual descobri que era capaz, sim, de superar minha timidez. Foi sobre prostitutas, em que eu e um colega de faculdade conhecemos algumas delas e marcamos uma entrevista. Quando cheguei ao prédio em Porto Alegre – quase todo de bordéis –, bati na porta e me atendeu uma prostitua nua. Quando entrei, havia um cafetão nu também, na cama! Olhei ao redor e pensei “onde eu sento?“, e só tinha a cama! Sentei e fiquei fazendo a entrevista com os dois nus na cama – e eu com meu bloquinho. E descobri que com meu bloquinho e minha caneta podia entrar em qualquer lugar. Isso para mim foi transformador [risos]!

Em um trecho do seu livro: " A menina quebrada" você comenta que a vida não se deixa compartimentar. Como enxerga essa segmentação no jornalismo praticado hoje?

Eliane Brum – Sou muito curiosa e minha curiosidade não se compartimenta. Eu não conseguiria ser uma jornalista especializada em uma coisa só. São pessoas diferentes. Comecei a ter as primeiras pistas de que estava na profissão certa – e isso já virou piada lá em casa – porque é assim: quando entrevisto um arqueólogo, volto para casa dizendo que quero ser arqueóloga. Até freira eu já tive vontade de ser. Eu me apaixono pela profissão das pessoas que são apaixonadas pelo que fazem. Uma vez, fiz uma reportagem superpesada em Goiás Velho e voltei querendo morar em Goiás Velho, pensei em comprar uma casa lá. Vou para a Amazônia e volto querendo morar na Amazônia. Quero morar em todos os lugares a que vou! [risos] Eu queria ter muitas vidas e ser jornalista é um jeito de ter muitas vidas. Acho que a internet mudou essa coisa compartimentada. Acho que o que estamos vendo agora é a quebra disso, estamos tendo que repensar nossos padrões. Há hoje um diálogo que não é compartimentado em uma área ou outra. As coisas se interrelacionam, conversam entre si. Acho que a internet está mudando isso também no jornalismo, é um outro jeito de estar no mundo. Tento nas minhas colunas fazer com que as coisas conversem. E elas me dão muito trabalho justamente porque não falam sobre uma coisa só. Se eu vou falar sobre os guarani-kaiowá, por exemplo, terei que entender como eles compreendem a palavra. Se eles escrevem uma carta que é uma declaração de morte, preciso entender como eles compreendem a palavra, senão não vou entender aquilo. Preciso estudar. Cada tema que me move tenho que estudar muito, porque preciso dar ao leitor algo consistente.

Em algum momento de sua carreira você se viu frustrada por ter que escolher uma temática específica ou por não ter espaço para publicar seus textos?

Eliane Brum – O espaço é sempre algo duramente a ser conquistado. E muito tempo se leva para isso. Trabalhei 11 anos em jornal diário, fazia duas, três pautas por dia. Cheguei a fazer cinco pautas por dia. E no começo da minha vida de jornalista, justamente por eu contar a história de um jeito que saía um pouco desse lide, da pirâmide invertida, houve uma certa resistência pela forma como eu fazia a reportagem. Aos poucos fui conquistando esse espaço. Naturalmente fui para Geral e Polícia (houve uma época que no Zero Hora essas duas editorias eram juntas). E fiquei sempre nessa área porque dava mais possibilidade. Aos poucos fui fazendo minha escolha, que foi pela extraordinária vida comum. Vejo o trabalho do jornalista como o de um historiador do cotidiano. Documentamos a história em movimento. E essa responsabilidade é enorme, porque influenciamos o que está acontecendo agora e a compreensão histórica desse momento. Se fazemos mal o nosso trabalho, estamos cometendo algo meio criminoso. Sempre fiz o meu trabalho com essa consciência. E fiz uma opção. A pauta não é uma coisa dada. O que é notícia é sempre uma disputa no campo da política. Tem um enorme efeito quando tu deixas de fora a maioria dos homens e mulheres que constroem o País. É devastador construir a história e não ser contado por ela, não se tornar narrativa histórica. Então, minha escolha é por esse mundo das margens, essa vida dos cantos, dos rodapés. Antigamente era dos que não tinham voz. Hoje, com a internet, não podemos mais dizer que damos voz a quem não tem voz. Cada vez mais as narrativas se ampliam, as pessoas têm já canais para colocar sua voz, e isso também é uma mudança para o jornalismo. Eu sou uma repórter de desacontecimentos. É um envolvimento pelas margens, pelo que fica nos cantos dos acontecimentos.

 Qual foi a reportagem mais desgastante, física ou emocionalmente, de sua carreira?

Eliane Brum – Sempre tenho uma entrega muito profunda às minhas reportagens. É sempre uma entrega tão grande que, quando volto delas, já não sei mais quem sou. Ser repórter é isso: despir-se de si para alcançar o mundo do outro, para ser preenchido pela voz que é do outro. Quando volto desse processo, eu também já sou outra, e tenho que me redescobrir. Então, todas as reportagens me custam muito e me dão muito. A minha primeira grande reportagem foi muito difícil, que foi quando eu refiz, em 1993, a marcha da Coluna Prestes. Depois ela virou o livro Coluna Prestes – o avesso da lenda (Artes e Ofícios). As minhas reportagens sobre a morte. Passei dois anos trabalhando a questão da morte não-violenta, a morte da maioria por doença ou por velhice, que é silenciada e difícil de falar. E especialmente quando acompanhei os últimos 115 dias de vida da Ailce, que tinha um câncer incurável. Acompanhar o morrer dela me obrigou também a fazer esse profundo confronto, não com a morte, mas com a vida. E a partir dessa reportagem fiz uma grande mudança na minha vida. Houve também a reportagem que fiz para o livro dos Médicos sem Fronteiras sobre doença de Chagas na Bolívia, que levei mais de um ano para dar um sentido para o que vivi lá. Nessa reportagem tive que me confrontar com a impotência, porque ser jornalista é isso, temos um confronto constate com a impotência. Contar uma história é muito e é pouco ao mesmo tempo, mas é o possível.

 Em outro momento do livro, você fala sobre dor e delicadeza, que as coisas ao seu redor doem em você. Como é essa dor?

Eliane Brum – O mundo me dói. Desde que eu me lembro de mim, o mundo me dói. E o jeito que encontrei de viver foi pela palavra escrita, pela reportagem. Transformar essa dor em algo ativo. A reportagem é essa palavra que age. Acredito profundamente no poder da narrativa como instrumento de transformação da própria vida. Escrever me salvou. O que eu busco é o que há de delicadeza nessa brutalidade.

Como enxerga o papel do jornalista hoje?

Eliane Brum – Acho que vivemos um momento muito especial do jornalismo, que é toda essa mudança que vem a partir da internet. A reportagem continua fundamental, está mais viva, porque sempre vai ser importante contar a história deste momento, a história cotidiana, e a internet amplia isso. Hoje, para fazer uma reportagem, temos outro desafio. Hoje, por exemplo, quando tu vais cobrir esses protestos, além de observar as pessoas na rua, o que fazem no momento, tem que ver que essas pessoas publicaram suas próprias narrativas no twitter, por exemplo. Tu podes procurar essas pessoas, ver quem elas são, ampliar a história que elas já contaram. Hoje, cada um está fazendo sua própria narrativa dessa história, o que torna nosso trabalho mais fascinante ainda. Eu sou muito otimista em relação a isso. Acho que há uma crise por conta do novo, por não sabermos como é que vai ser financiado, há uma crise do impresso, mas não é uma crise da reportagem. A reportagem continua tão ou mais viva quanto sempre, porque é um momento extraordinário da história. Estamos vivendo um momento realmente extraordinário, que é a mudança de um mundo inteiro junto com a chegada da internet, mudança nas relações. O mundo que conhecíamos com os padrões de pensamento que tínhamos, não existe mais. Estamos tendo que descobrir que mundo está sendo construído, porque contamos e fazemos parte dessa história. Então, nosso trabalho é ainda mais importante. Precisamos estar abertos para as mudanças de padrões e pensamentos, temos que encontrar novos caminhos nos quais nunca pensamos, construir nossas pontes em um momento marcado pela horizontalidade das narrativas e relações.

 Como você toca os seus projetos hoje?

Eliane Brum – Faço muita coisa ao mesmo tempo e gosto disso. Estou sempre escrevendo um livro. Viajo bastante, faço algumas palestras. Quando deixei de ter emprego, fui descobrir qual era o meu horário mesmo. Acordo sozinha às 5h e é quando eu gosto de escrever. Sempre há alguma coisa pra escrever, leio bastante, não tenho uma rotina fixa.

 E quem os fomenta?

Eliane Brum – As coisas têm partido de mim. Tenho feito algumas reportagens com o meu próprio dinheiro. Faço alguns trabalhos e junto dinheiro para fazer uma reportagem. Ainda estou procurando um modelo, também estou nessa questão – como vários outros jornalistas – de como financiar as reportagens que eu faço. Isso está em construção. Estamos vivendo em um mundo que não tem repostas. As que havia já não servem mais, temos que aceitar isso. E isso não é ruim. Precisamos aguentar esse não-saber, porque é daí que vem o novo. Precisamos quebrar formas de pensamento, e isso não é fácil, mas é muito legal. Então, estou procurando meu caminho. Só faço o que quero, e fazer só o que se quer tem um custo. Aprendi a viver com pouco dinheiro, minha vida é relativamente barata. Escolho as histórias que quero contar. Faço uma ou duas reportagens por ano, outras estão sendo feitas há mais de um ano. Paralelamente, vou experimentando outras coisas. Hoje tenho várias vozes: a reportagem é uma, a coluna é outra, e vou me movendo por isso. Minha angústia é que tenho tantos sonhos, tantos projetos que vai me faltar vida para fazer tudo isso. Então, sempre fazendo contas! Estou com 47 anos e fico me perguntando por quanto tempo ainda vou aguentar bem ir pra África, pra Amazônia... É essa a minha angústia, de que não vou conseguir. É triste, mas faz parte [risos].


Fonte:
Portal dos Jornalistas

sexta-feira, 15 de março de 2013

Curso de fotojornalismo da Universidade Autônoma de Barcelona oferece bolsa


Fotógrafos do mundo inteiro podem concorrer a uma bolsa de estudos para pós-graduação em fotojornalismo na Universidade Autônoma de Barcelona (UAB). Chamada de “Sonigmafoto”, a bolsa é voltada para graduados com habilidade em fotografia.

O curso será ministrado em espanhol, de outubro de 2013 a junho de 2014, no campus da UAB. A bolsa cobre a mensalidade do estudante.


Universidade Autônoma de Barcelona 
Os candidatos devem enviar um ensaio fotográfico de 20 imagens sobre um tema específico. Também é necessário enviar currículo com informações pessoais e de contato, formação acadêmica e experiência profissional.

As inscrições vão até 12 de abril. Mais informações pelo site da Sonigmafoto.

-Fonte: Catraca Livre

domingo, 27 de janeiro de 2013

Oficina apresenta técnicas e dicas para os profissionais de fotojornalismo


O fotojornalismo tem conquistado cada vez mais os novos profissionais da área de comunicação. Transmitir uma mensagem através de uma imagem, e manter a harmonia com o texto, são algumas das principais dificuldades enfrentadas por quem produz este tipo de material.

Para auxiliar os profissionais deste segmento, acontece no dia 23/02 (sábado), das 09h às 18h, no Centro Cultural da Intercom em São Paulo, uma oficina com a jornalista Ana Paula Paiva. Entre os conteúdos que serão ministrados, estão a ética no fotojornalismo, os diferenciais no mercado de trabalho, além de dicas e técnicas essenciais para os profissionais.


A jornalista Ana Paula Paiva é formada pela PUC-MG, trabalha há quinze anos nas principais editoras do país, e atualmente faz parte da equipe do jornal Valor Econômico. Em sua carreira, participou de exposições coletivas em São Paulo e Madrid, e publicou o livro “Rio, um ensaio crepuscular”, em 2003.

As inscrições para o evento já estão abertas no portal Oficinas Imprensa. Para saber mais, acesse: www.oficinasimprensa.com.br

(As informações são do portal Oficinas Imprensa)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Entrevista com Nick Ut

O editor do site PetaPixel, Michael Zhang, entrevistou o fotojornalista Nick Ut, vencedor do Prêmio Pulitzer pela foto da garota atingida por Napalm durante a guerra do Vietnã.

Confira abaixo a tradução da entrevista.


PetaPixel: Você pode me contar um pouco sobre como foi sua infância?

Nick Ut: Eu tinha uma família grande no Vietnã. Meu pai era um fazendeiro. Minha mãe estava ocupada - havia dez irmãos e uma irmã. Família grande, mas alguns deles morreram na guerra. Meu irmão era um fotógrafo da AP. Ele trabalhou como cameraman da CBS em 1960. Em 1964, ele entrou para a AP, e trabalhou lá por quase dois anos. Ele foi morto em 1965, fazendo um trabalho para a AP.

Depois que meu irmão morreu, eu perguntei a AP para me dar um emprego. Eles me disseram que eu era muito jovem. Eu não tinha nem 16 anos na época. Eu continuei ligando para eles para dizer que eu precisava de um emprego. Finalmente, em 1966, eles me deram um emprego.



PP: Então você ligou para a AP pedindo um emprego?

Nick Ut: Sim, para o chefe do meu irmão, porque ele conhecia meu irmão muito bem. Eles não queriam me contratar porque meu irmão havia morrido. Então um dia eu liguei para eles dizendo: Ei, eu quero estudar alguma coisa, e eu amo esse trabalho.” Então eles me disseram para ir até lá.
Então eu comecei a estudar o trabalho do laboratório no laboratório da AP em Saigon. Eu amava o laboratório, porque em Saigon não havia nenhum lugar para estudar fotografia. Lembre-se, em 1966, o Vietnã era um país muito pobre. Sem câmeras. Nada.
Depois que meu irmão morreu, eles ficaram com a Leica, a Rolliflex e a Nikon dele. Eu peguei as câmeras e aprendi muito. No laboratório da AP eles tinham inúmeras câmeras. Todos os dias eu brincava com as câmeras de outros fotógrafos da AP. Eddie Adams, o famoso fotógrafo que fez a foto do vietcong sendo executado, trabalhou para a AP em Saigon. Muitos fotógrafos famosos trabalharam lá.
Mesmo eles estando ocupados, eu aprendi muito com eles. Todos os dias eu pegava minha câmera, saia, e tirava fotos de tudo. Então eu voltava, revelava os filmes, olhava para a minhas fotos, e dizia: “Oh, isso parece bom”.
Um dia, havia monges budistas ateando foto a eles mesmo em Saigon. Meu chefe falou “Nicky, você quer ir tirar fotos?”, eu pensei “Eu não sou um fotógrafo”, mas ele disse “Vá fotografar alguma coisa!” Então eu tirei algumas fotos. No dia seguinte, minha fotografia estava na primeira página. Foi isso que me impulsionou para ser um fotógrafo.
Eu passei mais de três meses aprendendo naquele laboratório. Em 1968, os vietcongs atacaram a embaixada americana em Saigon. Eu fui tirar fotos. A AP me falou “Você é um bom fotógrafo”. Foi assim que eu me tornei um fotógrafo de combate, em 1968.

PP: Qual foi a primeira câmera que você usou?

Nick Ut: Eu usei uma Nikon M e uma Leica M2. Depois a AP me deu uma M2, uma M3 e duas Nikon F, então eu carregava quatro câmeras toda vez que eu saia para um trabalho.

Então eu comecei a viajar e cobri Vietnã, Camboja, Laos... Eu viajava de motocicleta e fazia trabalhos todos os dias. Guerra todos os dias. Era uma loucura. Eu fiz isso até 1975 e a queda de Saigon.

Antes disso acontecer, a AP me disse “Você precisa se transferir para o Japão, mas antes de fazer isso, primeiro você precisa se tornar um refugiado”. Do Vietnã eu voei para as Filipinas, e depois para Califórnia. Para Camp Pendleton.

Eu fiquei lá por quase três semanas, antes da AP me dizer “Nicky, vamos tirar você daqui. Venha para Los Angeles. Precisamos preencher toda a papelada antes de transferir você para o Japão”
Passei quase duas semanas em Los Angeles enquanto meus papéis estavam sendo processados.

Em 1975, eu fui para Tóquio, e passei dois anos lá como fotógrafo da AP. Eu não estava cobrindo guerras, mas havia muitos soldados lá. Depois de dois anos eu pedi à AP para me transferir para Los Angeles. Naquela época eles tinham muitos fotógrafos lá, então eles não quiseram me transferir. Eles sugeriram me mandar para o Hawaii ou para Washington DC... para cobertura política. Eu disse “Washington é muito frio, eu não quero ir pra lá, e no Hawaii não há trabalhos para mim”. Então eles me mandaram para Los Angeles.
Eu passei mais de 30 anos em Los Angeles, de 1970 até agora. Eu passo muito tempo trabalhando em todo tipo de cobertura: política, esportes, incêndios, prisões, etc... todos os tipos de cobertura.

PP: Você se lembra o que estava acontecendo nos momentos que antecederam a sua famosa foto de Kim Phuc?

Nick Ut:  Um amigo me ligou dizendo que havia muitos aviões sobrevoando o vilarejo. Os vietcongs e norte-vietnamitas tinha bloqueado uma estrada por três ou quatro dias para o combate. No primeiro dia eu não fui. No segundo dia, fui muito cedo, por volta de seis ou sete horas da manhã.

Quando eu cheguei lá, eu estacionei meu carro. Havia muita fumaça e muito barulho. Boom boom boom. O tempo todo.

Então eu viajei com os soldados do Vietnã do Sul por cerca de duas milhas. Eu tirei muitas fotos de combates intensos, com pessoas morrendo para todos os lados.

Quando eu voltei para a estrada, David Burnett e vários membros da mídia estavam lá. Eu já tinha muitas fotos, então eu não queria demorar muito. Por perto da hora do almoço eu vi um soldado do Vietnã do Sul com uma bomba-guia. Ele a atirou, e uma fumaça amarela começou a subir em direção ao céu.

Logo ouvimos o barulho de um avião se aproximando. O primeiro avião mergulhou e lançou duas bombas. O segundo, um A-1 Skyraider, derramou napalm. Nós pensamos “Nossa, a bomba estava muito perto”, mas nós pensamos que não havia mais ninguém lá.

Eu tinha uma lente longa, então eu tiro fotos das bombas caindo, e das explosões de bombas. Eu pensei comigo mesmo "Boas fotos. Talvez ninguém mais tenha fotos porque todo mundo já saiu".

Eu olhei para a fumaça, e então eu vi crianças correndo. Depois um gato. Depois outra família correndo. Então eu vi a avó de Kim Phuc correndo com um bebê de um ano nos braços. Era uma senhora idosa, e estava gritando “Me ajudem, me ajudem, ajudem meu neto”.

Quando ela estava há cerca de 50 passos de distancia, ela parou, e todos os fotógrafos e cinegrafistas começaram a tirar fotos do bebê. O garoto, aquele bebê de um ano, morreu em seus braços logo em seguida.

Eu me lembro de estar olhando pelo visor da minha Leica quando o garoto morreu. Enquanto eu estava fotografando, eu vi no canto do visor uma garota correndo com os braços abertos. Eu pensei “Oh meu Deus” e comecei a correr em direção a ela e tirei todas as minhas fotos.



Enquanto eu estava fotografando, eu notei um fotógrafo tentando rebobinar seu filme. Ele não tinha mais mais frames no rolo. Era David Burnett, com uma Leica antiga – um modelo muito velho. 1945, ou algo assim. Era muito difícil colocar o filme naquela câmera. Quando Kim veio correndo ele tentou tirar a foto, mas ele não tinha filme, então começou a rebobinar. Depois de colocar um novo rolo de filme, ele conseguiu uma foto dela sozinha, e uma de suas costas, mas nenhuma de todas as pessoas correndo.

Então David ligou para o New York Times e para a revista Time logo em seguida, dizendo “Nick Ut tem uma foto melhor. Nós precisamos ligar para a AP imediatamente”. Eles viram a foto na AP de Saigon.

Depois de tirar a foto de Kim eu pensei “Oh meu deus”. A garota estava correndo completamente nua, e quando ela passou por mim eu vi seu braço esquerdo queimado e a pele se soltando de suas costas. Eu imediatamente pensei que ela fosse morrer. Ela estava muito quente mesmo depois da bomba. Ela estava gritando e gritando, e eu pensei “Oh meu Deus”. Foi quando eu parei de tirar fotos dela.

Eu tinha água, então eu joguei água sobre seu corpo. Então eu coloquei minhas câmeras no chão e comecei a ajudá-la. Eu peguei um casaco impermeável emprestado para cobri-la e então comecei a garregá-la. O tio dela disse “Por favor, ajude as crianças e leve-as para o hospital”. Eu respondi “Sim, meu carro está logo ali”. Eu coloquei todas as crianças no meu carro imediatamente.

Na van, com o meu motorista, toda vez que eu olhava para Kim ela estava dizendo “Eu estou morrendo, eu estou morrendo”. Ela estava dizendo aquilo para seu irmão. “Irmão, eu acho que eu vou morrer.”

O trânsito do vilarejo para o hospital estava muito ruim. Eu ficava dizendo para o motorista “Depressa! Depressa!”.

Quando nós finalmente chegamos ao hospital, estava lotado, cheio de corpos, pessoas morrendo e feridas por todos os lados. Eu corri para dentro para pedir às enfermeiras e aos médicos que ajudassem as crianças, contando a eles sobre o napalm. Depois de vê-los ela disse “Medicina tradicional não pode ajudá-los. Nós não podemos fazer nada”.

Então eu mostrei a ela minha credencial de imprensa e falei “Se essas crianças morrerem, você estará com problemas amanhã”. Assim que viu que eu era da imprensa ela levou Kim para dentro na mesma hora.

Depois de ter ajudado as crianças, eu precisava voltar para Saigon imediatamente. Muitas pessoas já estavam ajudando, então eu não precisava ficar lá. Eu fui para o meu carro e corri de volta para a AP em Saigon. Só havia um editor lá. Eu tinha oito rolos de filme que levei para o laboratório para serem revelados. Era em preto e branco, e tudo levou cerca de dez minutos.
Depois de revelar os filmes nós olhamos os negativos. Quando meu editor de fotografia olhou para uma das fotos ele ficou chocado e disse “Nicky, por que você tirou fotos de uma garota nua?” Ele não sabia. Então eu expliquei a ele sobre o ataque com napalm que atingiu o vilarejo. Ele ficou chocado quando eu contei aquilo e escolheu um dos negativos. Ele levou o negativo para o laboratório e fez uma ampliação 5x7 da imagem.

Então nós voltamos para a mesa e esperamos meu chefe e outros dois editores chegarem. Os dois editores voltaram depois do almoço. Quando eles viram a foto, eles disseram “Acho que não podemos usar essa foto no jornal, porque a garota está nua”.

Quando meu chefe voltou e viu a foto ele perguntou “O que aconteceu?” e eu disse “Um ataque com napalm”. Ele mandou todos se afastarem e olhou todos os negativos novamente. Ele olhou vinte ou quinze imagens e então gritou “Eu quero uma legenda nessas fotos imediatamente!”

Um dos editores perguntou novamente para ele “Você acha que podemos usar essa foto?” Meu chefe respondeu “Eu não ligo. Escreva as legendas. Ande!” Os editores enviaram a foto para Nova Iorque para deixar que eles decidissem se a foto seria usada ou não. Quando Nova Iorque viu a força da foto eles disseram que queriam usar a foto imediatamente.

A foto foi parar na primeira página de todos os jornais e nas TVs. Me ligaram do jornal e disseram “Nicky, bom trabalho. Parabéns. Ótima foto.”
No dia seguinte havia protestos contra a guerra no mundo todo. Japão, Londres, Paris... Todos os dias depois daquele as pessoas estavam protestando em Washington DC, em frente à Casa Branca. A foto estava em todos os lugares.

PP: Parece que a maioria das pessoas chama a foto de “Napalm Girl”. É assim que você a chama?

Nick Ut: Eu chamo essa foto de “terrível”.

PP: Você deu algum nome específico para a foto?

Nick Ut: “Terrible War.” Muita gente diz “Napalm Girl” ou “Napal Photo”, mas quando eu uso essa foto eu digo “Terrible War”.




PP: Você pode nos contar sobre como você descobriu que havia ganho o Prêmio Pulitzer?

Nick Ut: Eu era muito jovem. Tinha apenas 19 anos. Depois de tirar a foto eu fui para outro trabalho logo em seguida, depois outro.

Eu ganhei o World Press Photo primeiro, e depois um prêmio atrás do outro. Finalmente me ligaram da AP e disseram “Nicky, vamos falar sobre o Prêmio Pulitzer”. No dia seguinte, quando eu fui para o escritório da AP, todo o staff estava lá com champagne e comida, me aplaudindo e dizendo que eu era o número um. “Nicky, você ganhou o Prêmio Pulitzer.”

Nas duas semanas seguintes, a AP fazia festas quase todos os dias para mim e minha foto. A AP também me enviou para Nova Iorque para receber meu prêmio.

Jornais do mundo inteiro me ligavam para me entrevistar sobre a foto. Isso me manteve muito ocupado. Depois de algum tempo, eu disse a eles que não poderia mais falar, pois tinha que ir para um trabalho.

PP: Eu li que você foi ferido três vezes durante a Guerra do Vietnã. Você pode nos dizer quais ferimentos sofreu?

Nick Ut:  O primeiro foi quando voltei para a casa de Kim Phuc para visitá-la. Quando eu me aproximei da casa uma granada explodiu e feriu minha perna. Doeu.

As outras duas vezes foram no Camboja. Eu tive muita sorte. Uma delas quase me matou. Um míssil explodiu e feriu meu estômago.

Quando os fotógrafos vieram cobrir a Guerra do Vietnã, todos eram atingidos por tiros. Era muito perigoso. Quatro ou cinco fotógrafos da AP morreram em Saigon. Meu irmão foi morto também.

PP: Em um evento da Leica, eu ouvi Kim Phuc te chamar de “tio”. Como é a relação de vocês agora?

Nick Ut: Ela me chama de “Tio Nick”. Depois da foto, eu ia visitá-la o tempo todo. Ela é como minha família. Eu ligo para ela uma vez por semana. Ela às vezes diz “Ele me incomoda demais!”  Ela está só brincando.

Ela me diz “Tio Nick, eu te amo”. Nós somos como uma família agora. Eu ligo para ela o tempo todo.



PP: Que conselhos você pode dar para quem quer ser fotojornalista?

Nick Ut: As pessoas querem perigo. Não é fácil, é muito perigoso.

Primeira coisa. Muita gente aprende pela minha foto. Pessoas que querem ajudar. Quando você vê alguém levar um tiro, ou ser ferido, ou pessoas que precisam de ajuda, você não fica só olhando e deixa as pessoas morrerem.
Lembre de Kevin Carter e de sua foto do abutre esperando para comer a criança. Foi por isso que ele se matou. Com a garota atingida pelo napalm, se eu não a tivesse ajudado e ela tivesse morrido, eu teria me matado também.

Esse é o trabalho. As pessoas precisam aprender.

Além disso, lembre que há 40 anos, fotógrafos de guerra carregavam muitas câmeras pesadas, quase cem rolos de filme. Negativo, preto e branco, filme para slide... tudo em uma grande mochila.

Hoje, é mais fácil. Você só carrega duas câmeras e um laptop. Você pode enviar as fotos na mesma hora. Tão fácil.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sebastião Salgado recebe prêmio ambiental


O famoso fotojornalista foi o vencedor da terceira edição do prêmio Personalidade Ambiental, da organização WWF.

Autor de trabalhos renomados, como Trabalhadores (1996), Terra (1997), Serra Pelada (1999) e Exodos (2000), e vencedor de diversos prêmios, entre eles o World Press Photo, o brasileiro é um dos mais respeitados fotógrafos da atualidade.
Acampamento da tribo Dinka. Sudão do Sul, 2006.

O prêmio
Entregue a cada dois anos, o Prêmio WWF-Brasil Personalidade Ambiental é concedido a uma pessoa reconhecida por seu trabalho pela conservação da natureza e pela promoção do desenvolvimento sustentável no nosso País.

A primeira edição do prêmio foi entregue a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Na segunda edição, o vencedor foi o Dr. Carlos Nobre, pesquisador-titular e coordenador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Série de encontros no Mackenzie debate empreendedorismo ligado ao fotojornalismo

A próxima palestra da série encontros Arfoc-SP/Mackenzie será no dia 3 de outubro, com o tema Fotojornalismo e Empreendedorismo. Gratuito e aberto aos interessados, o encontro acontece às 19h30, no auditório João Calvino (Mezanino) do campus Higienópolis da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), em São Paulo.

Para assistir ao evento, é necessário se inscrever pelo e-mail arfoc-sp@arfoc-sp.org.br. O edifício João Calvino pode ser acessado pela Rua da Consolação, 930.

A série Arfoc-SP/Mackenzie, com debates mensais, é coordenada pelo professor de fotojornalismo do Mackenzie, Manoel Nascimento, e promovida pela universidade em parceria com a Arfoc-SP (Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo), sociedade civil que visa incentivar e desenvolver ações culturais no Estado, representando seus associados nas questões relacionadas à imagem fotográfica e cinematográfica.

Para a edição de 3 de outubro, virão dois grandes nomes do fotojornalismo e pioneiros no empreendedorismo profissional, com a fundação de agências de fotografia. A ideia do debate é discutir a necessidade do jornalista e do fotojornalista serem empreendedores e gerenciarem suas carreiras profissionais. Conheça-os melhor:

Emidio Luisi
Fotojornalista desde a década de 70, trabalhou para a revista Veja São Paulo e o jornal Diário do Grande ABC. Recebeu os prêmios de fotografia da Aberje, APCA e o XI Abril de Fotojornalismo. Participa da coleção do Instituto Cultural Itaú e da Coleção MASP/Pirelli. Autor de vários livros de fotografia e coordenador de projetos sobre o tema, atualmente é diretor da Fotograma Imagens.

Juca Martins
Fotojornalista desde 1970, produz reportagens para jornais, revistas nacionais e internacionais e trabalhos para anúncios, livros, pôsteres e calendários. Participou de exposições no Brasil, Espanha, Itália, França, Alemanha, Suíça, México, Cuba, Colômbia e Equador e tem obras adquiridas para os acervos do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e Museu de Arte Kunsthaus, em Zurique (Suíça). Ganhou os prêmios Esso de Fotografia (Brasil), Internacional Nikon (Japão) e o Vladimir Herzog de Direitos Humanos (Brasil). Hoje é editor e fotógrafo da agência Olhar Imagem.


domingo, 23 de setembro de 2012

Sesc abre cursos de fotografia

O Clic Clube, projeto de fotografia do Sesc Consolação, abre inscrições para cursos de fotografia nos meses de outubro, novembro e dezembro. Os cursos têm o intuito de instigar a prática e a reflexão do ato fotográfico, oferecendo aos participantes uma oportunidade de se aprofundar no universo da fotografia por meio de diversas propostas profissionais, entre elas, cursos e vivências. Os cursos incluem Teoria da Fotografia, Difusão Fotográfica, a Arte de Fazer Um Retrato Estranho, Teoria da Pintura nos Grandes Temas da Fotografia, Pintura Sobre Fotografia, Fotografia Digital, e outros. Mais informações no site www.sescsp.org.br

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Prêmio Syngenta de Fotografia


Concurso de fotografia oferece prêmios que chegam a 65 mil dólares

Para aqueles que adoram apertar o botão e se deliciar com as imagens produzidas, a Syngenta promove o Prêmio Syngenta de Fotografia.

Os prêmios alcançam o valor de 65 mil dólares e tem como tema obrigatório a relação “rural-urbana” das cidades contemporâneas.  A comissão julgadora é formada por fotógrafos internacionais reconhecidos, dentre entre eles o brasileiro Milton Guran.

Existem duas categorias: Competição Aberta, que aceita fotógrafos amadores e profissionais, e premia o 1º, 2º e 3º lugar com 5 mil, 3 mil e 2 mil dólares, respectivamente.  Tem também a Comissão Profissional, mais indicada aos fotógrafos que se dedicam integralmente a fotografia. Aqui, os finalistas recebem prêmios variados. O primeiro colocado ganha de 15 a 25 mil dólares, o segundo lugar recebe 10 mil dólares e a terceira posição leva 5 mil dólares respectivamente.

As inscrições já começaram e vão até dia 15 de janeiro de 2013.

Para mais informações, acesse o site.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fotojornalismo em situações de conflito é tema de encontro em São Paulo

O dia em que o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, completa 11 anos, é o mesmo em que acontecerá o encontro para discutir o “Fotojornalismo em Situações de Conflito”. Realizado pelo Mackenzie, o evento será mediado pelo professor Alexandre Huady, diretor do Centro de Comunicação e Letras da universidade e organizador do livro Uma foto vale mais que mil palavras, que discute a Guerra do Vietnã.

Da esq. para a dir.: Apu Gomes, Joel Silva e Epitácio Pessoa
O debate faz parte da quarta edição da Série Encontros Arfoc/Mackenzie e tem como objetivo discutir as dificuldades encontradas para a cobertura jornalística de conflitos e guerras, tanto no Brasil como em países que sofrem com conflitos internacionais ou urbanos.

Participarão do evento os fotojornalistas Epitacio Pessoa, que cobriu a rebelião do Carandiru em 1992 e atua desde 1991 no Grupo Estado; Joel Silva, que trabalha na Folha e presenciou a deposição de Manuel Zelaya da presidência de Honduras em 2009; e Apu Gomes, que, atualmente, desenvolve projeto fotográfico sobre a Cracolândia em São Paulo também para a Folha.

A palestra, gratuita e aberta ao público, acontece no próximo dia 11 de setembro, às 19h30, no auditório Reverendo Wilson (11º andar) do prédio do Centro de Comunicação e Letras (CCL) da UPM, em São Paulo. Para assistir ao evento, é necessário se inscrever pelo e-mail arfoc-sp@arfoc-sp.org.br

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fotojornalista André Liohn no Roda Viva

No dia 30 de abril o fotojornalista André Liohn foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura. O fotógrafo brasileiro recebeu o prêmio Robert Capa Gold Medal 2011, um dos mais importantes do fotojornalismo mundial, pela série de imagens feitas por ele na cidade sitiada de Misrata, na Líbia.

Confira abaixo o vídeo com a íntegra da entrevista.